a desgraça de um pseudoevangelho politicamente correto

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Eis que amas a verdade no íntimo, e no oculto me fazes conhecer a sabedoria. Salmos 51:6.

O Salmo 51, é sem dúvida, o desnudar da alma de um homem diante de seu criador. Seu aparente atrevimento e suas proposições nos parecem descabidas diante dos fatos que o precedem. Parece, no mínimo, uma cara de pau sem tamanho o simples pedido de clemência “Compadece- te de mim…”, com o qual o texto se inicia, tendo em vista é claro, o contexto em que ele é redigido.

Podemos considerar este Salmo como uma das maravilhas que a pena humana teve o privilégio de ser instrumento para a sua redação. Se atentarmos para cada palavra é inimaginável do ponto de vista da religião do êxito, do abençoado, do mérito, que reflete o pensamento do mundo governado pelo diabo, uma autoexposição realista de fraqueza como descrita no texto. “Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência”. Efésios 2:1 e 2.

Para deixar mais claro a pensamento mundano de que falamos: É aquele que traz consigo a sacralização moderna do catecismo evolucionista de Darwin, que na verdade surge justamente para legitimá-lo, como já disse em outros textos. Tal catecismo apregoa a conduta em que o forte tem o direito de se impor sobre o fraco para o bem da espécie distante, mesmo que isto signifique consequentemente o mal ao próximo.

Isto, na verdade, expõe os rudimentos de um mundo caído, que tenta projetar esta relação de poder inclusive no que se refere à sua “espiritualidade” exercida na base do cê-cê, da força e do esforço, mentalidade sobre a qual Jesus deixou claro seu fim. “Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos céus é tomado à força, e os que usam de força se apoderam dele. Pois todos os Profetas e a Lei profetizaram até João”. Mateus 11:12,13.

Este tipo de pilar estrutural, de fundamento ou base de valor em que o mundo constrói suas relações, mentalidades e regras, para a qual o Deus crucificado é escândalo e loucura, cria na verdade uma armadilha. Esta armadilha traz como isca a postergação de um bem futuro que nunca chega, generalizando também seus beneficiários, ao passo que antecipa o mal para o presente, que não se faz de rogado na hora de impor sofrimento ao próximo. “São os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Romanos 3:15 a 17.

Entretanto, o Salmo parece romper com esta lógica do poder, pois Davi contrariando está fórmula expõe justamente suas fraquezas. O que o leva a fazer isto? Freud dizia o seguinte: “Quando Pedro fala de Paulo, sei mais a respeito de Pedro do que de Paulo”. Porém, penso que neste caso em questão, o inverso também é verdadeiro. Pois à medida que alguém se expõe da maneira como Davi se expôs diante de seu Deus, consigo saber mais a respeito deste Deus do que do próprio Davi. Talvez o caminho para a resposta da pergunta acima esteja por aqui. São muitas as percepções sobre o Deus em questão, e talvez, não seja possível destacá-las todas neste texto, mas vejamos algumas.

Em primeiro lugar, podemos perceber a exclusividade do Deus de Davi. Nunca na história deste país, e por que não dizer do mundo, nos foi apresentado um Deus assim. Por exemplo, um Deus que não tem prazer em sacrifícios. “Pois não te comprazes em sacrifícios; do contrário, eu tos daria; e não te agradas de holocaustos.” Salmo 51:16.

Todas as divindades pagãs da história, como todo ídolo – que na verdade é o diabo disfarçado, como a palavra de Deus nos ensina – buscam na religiosidade vazia repleta de um misticismo sincrético, cheio de ritos e sacrifícios, a usurpação de uma adoração de segunda mão. Pois estes ídolos por sua vez, subsistem dos fetiches, da extorsão, do medo, da ganância, da ignorância e do sacrifício imposto a seus devotos. : “Mas que digo? Que o ídolo é alguma coisa? Ou que o sacrificado ao ídolo é alguma coisa? Antes digo que as coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios”. 1 Coríntios 10: 19 e 20a,

Mas, o Deus a quem Davi se dirige não é assim. Antes, representa uma novidade maravilhosa em termos de divindade. “Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu um Deus além de ti que trabalha para aquele que nele espera”. Isaías 64:4. Poucos, talvez, puderam ao longo das escrituras, expressar tal olhar para Deus, como o olhar expresso por Davi neste Salmo.

É um Deus diante do qual Davi se apresenta confiado em duas características marcantes:

Sua benignidade e Sua misericórdia abundante. Ao contrário da forma comum com que as pessoas se dirigirem a suas divindades, apresentando suas justificativas e suas obras de justiça como sacrifício (Lc 18:11), Davi oferece seu pecado existencial e permanente, além de toda sua sujeira, na esperança de que seu Deus único, o receba.

A entrega de Davi, bem como as expectativas manifestas por ele em relação ao seu Deus, também falam muito desta divindade. Diante de quem você teria coragem de se expor voluntariamente desta maneira? Este Deus é capaz de apagar as transgressões, de lavar completamente a sujeira de nossa iniquidade e de purificar de todo pecado. “o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado”. 1 João 1:7b.

O Deus de Davi é o Deus que tem compromisso com a alegria, e é capaz de restaurar a alegria. O Deus de Davi é o Deus criador, capaz de criar em nós um novo coração e de conceder um espírito novo, inabalável e voluntarioso. “E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne”. Ezequiel 36:26.

O Deus de Davi é tão especial, que promove um desejo intrínseco de contar pra todo pecador a boa nova de que há solução e esperança para o pecador num Deus inigualável. “Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos, e os pecadores a ti se converterão”. Salmos 51:13.

E mesmo aqueles cujas bocas estão fechadas por uma existência sem esperança, Ele mesmo é capaz de destravá-las e por nelas um cântico de louvor e de júbilo, como Jesus disse acerca de sua missão quando leu Isaías numa sinagoga. “A ordenar acerca dos tristes de Sião que se lhes dê glória em vez de cinza, óleo de gozo em vez de tristeza, vestes de louvor em vez de espírito angustiado; a fim de que se chamem árvores de justiça, plantações do Senhor, para que ele seja glorificado”. Isaías 61:3.

Porém, para além de todas estas características do Deus a quem Davi se dirige, gostaria de destacar uma que considero fundamental. “Eis que amas a verdade no íntimo, e no oculto me fazes conhecer a sabedoria”. Salmos 51:6. O Deus de Davi ama a verdade, mas não é qualquer tipo de verdade obvia e constatável, do tipo “eu nunca matei, eu nunca roubei”. O Deus de Davi ama a verdade oculta no escondido do coração, no bunker da alma. A verdade como suprassumo da realidade mais íntima. E este amor de Deus à verdade independe de seu conteúdo, mas depende de sua pureza e nudez.

Neste sentido, gostaria de apresentar um coautor com Davi neste Salmo. Claro que meu atrevimento não pode ser julgado do ponto de vista da crítica textual. Antes, minha sugestão é pautada na essência do ofício de profeta. O profeta de Deus fala o que Deus diz e seu compromisso e legitimidade está diretamente ligado à sua fidelidade à palavra de Deus a ele revelada. De tal forma que, só será profeta de Deus se disser a palavra de Deus.

Este Salmo jamais existiria se Deus não tivesse enviado Natã a Davi, com a missão de lhe expor a verdade. E também se Natã não amasse mais a verdade de Deus que sua reputação e cabeça. Vivemos num tempo em que as cadeias do politicamente correto diluíram na maioria dos púlpitos a mensagem do Evangelho, pelo medo das consequências que a verdade nos traz.

Se por um lado, aqueles que deveriam ser boca de Deus se acovardam pelo cuidado de si mesmos ou com pretexto de encher igrejas com um pseudoevangelho humanista que, em primeira mão toleram e depois passam a apregoá-lo. Por outro lado, as pessoas não querem mais ser confrontadas com a verdade. Como fez Natã, que diante do veredito pronunciado pela boca do próprio rei “Então o furor de Davi se acendeu em grande maneira contra aquele homem, e disse a Natã: Vive o Senhor, que digno de morte é o homem que fez isso”. 2 Samuel 12:5. Ao que Natã responde:“Tu és este homem”. 2 Samuel 12:7ª.

Sim, temos podido perceber na grande maioria dos púlpitos a religião da potência humana e do desprezo à verdade. Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina. 2 Timóteo 4:3a. Igrejas carentes de cotonete, que se mobilizam para trazerem aos montes doutores na mentira, pós-doutores moldados na forma do mundo, formados não no evangelho da cruz, mas conformados com os desejos dos povos que não querem ouvir a verdade visto que esta contraria suas concupiscências. “Mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências”. 2 Timóteo 4:3b.

E tudo isto patrocinado pela idéia diabólica do evangelho do politicamente correto. Se assim fora, Natã jamais teria anunciado a necessidade de morte do rei, Davi provavelmente não teria se arrependido e o salmo 51 não teria sido escrito. Como bem ressaltou Dietrich Bonhoeffer: “Calar-se diante do mal, é o próprio mal”. Alguém que jamais foi contrariado, confrontado e exposto no seu íntimo, também jamais ouviu o Evangelho da verdade ou experimentou a cruz. Um evangelho sem cruz não é o Evangelho, e um cristianismo sem crises é um cristianismo sem Cristo. E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. João 8:32.

Alexandre

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