o paradoxo da ressurreição

2015-04-01-09-20-53-pascua

E ao anjo da igreja em Esmirna, escreve: Isto diz o primeiro e o último, que foi morto, e reviveu: Apocalipse 2:8

É no mínimo curioso percebermos como nós seres humanos, de modo geral, desejamos viver o máximo de tempo possível. E por conta deste desejo há muita luta, dedicação, investimento em estudos e tecnologias que de alguma maneira possam contribuir para retardar o tempo, ou quem sabe até retrocedê-lo, com o objetivo de viver mais e melhor.

Nesta busca incessante pelo sonho da imortalidade, ou pela famosa fonte da juventude, este mesmo ser que luta para permanecer vivo, paradoxalmente, se mostra  tão incrédulo quando o assunto é a ressurreição – não percebendo que no fundo, sem a ressurreição qualquer uma de todas as suas outras crenças é na verdade vacuidade, é vã. Pois em face da morte a única coisa que resta, tanto para sábio quanto para o tolo é encher a barriga até que a morte chegue, dando a tolice e a sabedoria o mesmo fim . E, se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação, e também é vã a vossa fé. 1 Coríntios 15:14.

Parece-me que deveria existir em um ser – que tanto aspira pela imortalidade – quase que uma pré-disposição natural para a credulidade em tal possibilidade. Sabe aquela história que: mesmo quando algo parece incrível, a pessoa se entrega de corpo e alma, pois quer acreditar? Fica cega para a opinião de quem quer que seja, visto já estar convencida de antemão.

Seria mais ou menos como no exemplo da mulher carente que acredita nos galanteios do misterioso da internet que lhe pede dinheiro emprestado depois de alguns dias de bate-papo, mesmo com todas as suas amigas lhe dizendo: “Cuidado, parece um golpe!”. E ela com os olhos brilhando diz:“Não, ele não é assim. Ele me ama!”. É o tipo de engano autoconsentido, como descrito no texto bíblico: E o meu coração se deixou enganar em oculto, e a minha boca beijou a minha mão. Jó 31:27. Esta deveria ser a posição de alguém que quer viver para sempre quando alguém lhe falasse sobre a ressurreição.

É disto que estou falando: o ser humano deveria, ao ouvir sobre a ressurreição, ter uma postura naturalmente inclinada a crer, tendo em vista seu desejo intenso de viver para sempre. Porem, não é bem isto que percebemos em nossos dias, antes o que vemos, é uma resistência ao testemunho da ressurreição.

“Em que base sustentamos nossa incredulidade na ressurreição de Cristo?”, perguntei a um professor amigo meu. Ele me respondeu: “No fato de que não estávamos lá para ver”. Então disse a ele: “Nossa cultura só pode ser adquirida da mesma forma. Eu só posso aceitar como verdade que Sócrates viveu em 469 A.C e que fundou o método socrático, por uma espécie de fé. Ou seja, eu também não vi, mas acredito que foi assim. E assim se faz com toda nossa cultura”.

Sei que muitos poderiam dizer: “Temos evidencias histórica”. E evidencias históricas da ressurreição não? Vejamos então: Quando uma mentira inventada por várias pessoas, sujeita por isto a contradição, sem absolutamente nenhuma conexão com fatos históricos. Contada por gente sem credibilidade ou expressão social. Contrária aos interesses dos poderes políticos, religiosos  e financeiros, causou os efeitos do testemunho da ressurreição na história?

Sim, quando uma mentira deste tipo, reprimida com tortura, confisco de bens, prisão e muitas vezes a própria morte. Teve uma capacidade inegável de impactar, não somente seu tempo e sua sociedade, mas os 20 séculos vindouros, ultrapassando todas as fronteiras geográficas tendo impacto direto na vida de bilhões de pessoas de todas as classes sociais e de todos os continentes?

Quando uma mentira foi capaz de inspirar e influenciar os maiores mestres das artes plásticas, da arquitetura, da musica, da literatura, da ética, da filosofia e da ciência? E mesmo sofrendo esta dita mentira, 20 séculos de oposição daqueles que tem o poder e portanto a condição de influenciar a opinião publica, alem do escrutínio, da investigação acurada, pelas consideradas maiores mentes céticas ou incrédulas que o mundo pôde produzir, foi capaz de permanecer firme sem que ninguém consiga dar uma outra versão que a suplante?

Quando na história humana uma mentira com estas características foi capaz influenciar as leis, a sociedade ou  produzir os efeitos que o testemunho da ressurreição produziu, sem que para isto fosse necessário soltar bomba em ninguém e nem se utilizar de lavagem cerebral em adultos e crianças ? A resposta é nunca. Então onde esta a base em que sustentamos a incredulidade na ressurreição de Cristo? A ressurreição é fato histórico inegável.

Porém, o que vemos em nossos dias é que, mesmo aqueles que abraçam a fé Cristã, fé esta que tem como sustento de sua estrutura o testemunho da vitória sobre a morte em Jesus Cristo – Porque primeiramente vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado, e que ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. 1 Coríntios 15:3,4 ; mesmo estes, parecem-nos, na prática, um tanto receosos.

Sim, é comum na vida prática de muitos destes cristãos, uma postura não muito convincente, em sua grande maioria, quando objetivamos o impacto que tal crença deveria provocar nestas pessoas e nas pessoas a sua volta. Por exemplo, nós os assim chamados cristãos, em sua grande maioria, vivemos uma vida ansiosa mesmo quando a palavra de Deus nos diz:

Não andeis ansiosos de coisa alguma Filipenses 4:6a.

A ansiedade generalizada é típica de nossos dias – de dias rápidos e desespero por qualquer coisa exagerada que nos dê a impressão de estarmos vivos – parafraseando o poeta. É como alguém que com muita fome, mas intuindo que tem pouco tempo para fazer sua refeição, tenta engolir tudo que sua alma anseia. Porém, como alguém convicto de sua eternidade pode ser tão ansioso com o tempo, em relação às coisas que pensa precisar fazer? Dizemos crer na eternidade, mas no fundo desconfiamos dela.

Aliás, “fazer” é outra realidade que nos chama a atenção. Vemos cristãos fazendo. Nunca se fez tanto, nunca fomos tão ocupados com tantas coisas. Parece ser o desespero do morto querendo convencer a si e aos outros pelo excesso de atividade, de que tem vida em si mesmo.

Contudo, o que vermos é uma espécie de zumbi patético que, mesmo com tanto movimento, deixa notório seu estado de morte, fruto justamente de uma resignação em querer parecer vivo, em querer ser o que não é. Sem perceber que, diante do olhar D’aquele que sonda corações o engodo é flagrante. Conheço as tuas obras, que tens nome de que vives, e estás morto. Apocalipse 3:1

Desta forma não é difícil percebemos que o “fazer” tornou-se um imperativo, como um sinal de vitalidade – e tudo ao mesmo tempo. Como se toda a vida que temos para usufruir fosse, na realidade, esta Bios mortal e não a Vida eterna que habita o espírito daquele que pela fé em Jesus o Cristo foi feito um filho de Deus. Se, porém, Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito é vida, por causa da justiça. Se habita em vós o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos vivificará também o vosso corpo mortal, por meio do seu Espírito, que em vós habita. Romanos 8:10 e 11.

O que temos percebido é que muita gente sincera, frequentemente está usando o próprio cristianismo numa tentativa desesperada de, mais uma vez, fazer com que sua vida não seja vã, porém isto é inútil. Outros não se importam em confessar o credo que for, mesmo que seja dirigido a um pseudodeus melindroso, sádico e barganhador.

É gente desesperada por salvar a própria vida, vida esta que na realidade não passa de uma existência, que por sua vez não passa de um sopro, um hálito – quiçá fosse bom – no entanto o que percebemos na maioria é um mau hálito. Mas, ainda assim, seja lá qual for sua sina, continua sendo um sopro. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece. Tiago 4:14b.

Este sopro, por ser um sopro, faz da sinceridade um desperdício, fruto entre outras coisas da ignorância, por não saber que, quanto mais nos esforçamos nesta tentativa de sobreviver, mais perto estamos de não existir. Como aquele que não sabe nadar e que na água se debate na tentativa de livrar-se, não entendendo que a única coisa que faz é na verdade, abreviar o tempo em que sua energia chegará ao fim e o afogamento será inevitável; sem perceber que, se apenas se rendesse à água boiando como um morto, viveria pelo favor da própria água. Porque, qualquer que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas qualquer que, por amor de mim, perder a sua vida, a salvará. Lucas 9:24.

Para mim aqui reside o nó górdio da questão. A ressurreição só pode ser um problema para quem quer viver para sempre, pelos simples fato de que a ressurreição pressupõe morte.

Aqui reside o problema da fé cristã. Se a fé última do cristão é a ressurreição do corpo, a fé primária do verdadeiro cristão é a sua morte. Se Deus ao unir-se ao homem tornando-Se homem teve que morrer crucificado, como o homem ao ser unido a Deus pode esperar destino diferente? Aqui está o aferidor da experiência cristã.

A isto podemos corroborar com o texto de Moltmann: “Há um critério inerente a toda teologia e a toda igreja que se afirma cristã. E este critério transcende a toda critica política, ideológica e psicológica fora dela. Este critério é o próprio Cristo crucificado. Quando as igrejas, teologias e modos de fé recorrem a Ele, e elas precisam recorrer a Ele se quiserem ser cristãs, estão recorrendo ao juiz mais rigoroso e ao mais radical libertador da mentira e vaidade, libertador da luta por poder e do medo. As igrejas, os crentes e as teologias precisam ser tomadas ao pé da letra. E esta palavra é a “palavra da cruz”. Ela é o critério da verdade deles e por isso, a crítica à sua falsidade”.

Vivemos um tempo onde o cristianismo, em muitos casos, tornou-se mais um meio de negar a cruz de Cristo – mais um paradoxo.

E isto pelo sentido de seu próprio movimento. Um sentido umbigocêntrico onde Deus é para mim, não em mim e através. Paulo nos ensina que Deus morreu por amor, para nos livrar desta corrente umbilical curta e grossa, que nos faz prisioneiros de nós mesmos e do inferno.

Nesta morte Ele destrói esta prisão do eu e leva cativo o cativeiro, atestando o óbito do prisioneiro, que é ao mesmo tempo seu próprio cárcere e carcereiro. E, em Sua ressurreição, escancara as portas do Seu reino, nos dando à liberdade, nos trazendo a Vida para expandirmos as fronteiras em direção ao outro e até ao infinito, em direção a Deus e Sua vontade. Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. 2 Coríntios 5:14,15.

Pelo amor somos constrangidos a amar, e o amor não busca seus próprios interesses (1 Cor 13:5). Somos constrangidos a concluir o óbvio: se Cristo morreu é porque todos tínhamos que morrer. E se Ele morreu por todos, então todos morreram. Somos constrangidos também ao paradoxo: só vive de fato quem morre com Cristo. Só nesta loucura podemos encontrar sanidade.

Só assim podemos encontrar sentido no conselho de Cristo ao pastor de Esmirna. Um pastor atribulado, pobre e mal falado, e que tem sua identidade restaurada por Cristo (Tu és rico) sanduíchado em um pão feito com mais tribulação, que por sua vez tem prazo para acabar, ao passo que ele não, pois já ressuscitou com Cristo. Aguenta firme a tua luta diz Jesus, pois nem que você morra nela, a morte não é mais um problema para quem já morreu, ela não mata quem já foi morto. E para aqueles que ressuscitaram com Cristo, a morte, já não causa dano algum.

Parece loucura, num mundo onde muita gente está disposta a dar testemunho da cura, mas não o testemunho da cruz; onde se busca dar testemunho da fé em Deus, no poder e nas grandes realizações como sinônimo de benção. A este mundo, parece loucura ver um pastor de Cristo ser encorajado por Cristo a permanecer firme mesmo quando tudo vai mal, trazendo-nos a memória que Ele é quem começa e quem termina tudo, porquanto Ele mesmo já passou pela morte, mas reviveu, e Nele estamos seguros. De que Deus estamos falando mesmo? Do único e verdadeiro Deus, o Deus crucificado, o Deus – paradoxalmente – poderosamente-fraco Jesus Cristo, o filho do Deus vivo. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida. Apocalipse 2:10.

Na graça bruta d’Aquele que nos ama sem medidas,

Alexandre.

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Uma resposta para “o paradoxo da ressurreição

  1. Ótima mensagem estou sendo muito edificado
    Através dela que o Senhor nosso Deus continue te Abençoando sempre !

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