TEOLOGIA DA DESCONSTRUÇÃO 3 – trilhando o caminho da desconstrução

A noite estava linda e eu, nos fundos de minha casa, buscava ter comunhão com Deus em oração. Fiquei um tempo em silencio até que de repente o silencio foi quebrado pela palavra Deus. No mesmo instante O procurei, mas Ele parecia não estar por perto, ainda que a minha consciência estivesse permeada pela idéia de Deus, contudo Ele parecia distante e impessoal – nada mais que uma ideia.

Pensei que esta distância poderia ser gerada pela minha própria formalidade em relação a Deus. Resolvi, então, me aventurar pelas veredas da informalidade e, depois de alguns segundos, novamente o silencio foi rompido, só que agora pela palavra Pai.

Foi neste instante que a situação se agravou. Senti-me intimista demais e certo temor tomou conta do meu coração e experimentei algum desconforto. Afinal de contas, o Pai em questão é Deus, o todo-poderoso, criador dos céus e da terra, Santo e que deve ser respeitado por isto. Achei que esta informalidade poderia representar uma afronta com relação à santidade de Deus.

Lógico que isto não ocorreu de maneira tão elaborada cognitivamente falando. Foi algo quase instintivo, mas o fato é que este desconforto tomou conta do meu coração, foi quando comecei a perceber naquele exato momento o quanto a identidade de Deus para mim estava no campo da teoria.

Não que eu, antes deste momento, não tivesse experimentado uma relação verdadeira com Deus. Talvez aqui caiba uma definição melhor da palavra experimentado ou experiência. O sentido de experiência que tento passar está relacionada com um acontecimento significativo e sobrenatural, capaz de nos mudar, e de mudar também a nossa cosmovisão, e isto, de maneira clara e consciente.

Por esta razão posso afirmar Cristo já era minha vida, o Espírito Santo já habitava meu espírito, eu era um novo nascido. Mas eu passava por um problema que muitos hoje podem estar passando. O fato de que a nossa percepção de Deus, pode ainda estar contaminada pela nossa cultura, religião e tradição, e é natural que seja assim.

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Porém, mesmo diante desta naturalidade devemos ter coragem e honestidade para questionarmos nossas tradições e cultura. Inclusive nossa religião, como bem ressaltou José Comblin: Jesus questionou duramente a religião de seu tempo, e todo discípulo deve questionar toda expressão religiosa de seu tempo, em primeiro lugar, a sua.”

Devemos desconfiar de todas as respostas enlatadas, que nos são oferecidas como faziam os bereanos. Sabendo, porém, que é comum em relação a este tipo de atitude, os privilegiados pelo statos quo, tacharem de rebeldes e hereges, os que se atrevem a fazer tais questionamentos, como fizeram com Cristo. Se fizeram com Cristo você não deve esperar tratamento diferenciado, pois o servo não é maior que seu Senhor.

No entanto, não é neste espírito que se deve buscar estes questionamentos, e sim no espírito que se expressa com o amor a verdade e pelo desejo profundo e sincero de conhecê-la. Tendo em vista que a verdade jamais se sentiria ofendida, pois sabe que nada podemos contra ela, se não a favor dela.

A única verdade que tem medo dos questionamentos é a pseudo-verdade das tradições humanas. E isto por sua irritabilidade e desconforto diante da curiosidade já sob suspeita. Com relação à verdade de Deus, somos estimulados a nos empenhar nesta tarefa. Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o coração.”

A partir de minha experiência relatada acima, ficou claro para mim que as duas maneiras de me referir a Deus, aprendidas teologicamente, não me ajudariam em nada diante do meu total desconforto no quanto ao meu relacionamento com Ele. Foi então que me enchi de coragem e, num ato que beirava o precipício da rebeldia, fiz a pergunta: “Deus, quem é você?”

Naquele momento, despido de toda educação formal, e de toda pretensa intimidade falsa, não me importando com mais nada, simplesmente fiquei nu diante Dele, e corri para a luz, expressando simplesmente a verdade, sem me importar se estava teologicamente correto, apenas abrindo a dúvida do meu coração, que a partir daquele momento eu tinha decidido não esconder mais, como se isto fosse possível, se esconder de Deus.

Esconder de Deus realidades internas é impossível, a menos que o deus em questão seja o deus falso da religião: o deus criado à nossa imagem e à nossa semelhança. Este é o que despreza a verdade, aliás, sendo um deus falso, é incompetente para discernir a verdade.

Mesmo porque, tendo em vista sua essência fraudulenta, é totalmente alheio a verdade. Ele mesmo, não passa de uma projeção, um holograma, um ídolo, que tem boca mais não fala, tem olhos, mas não vê, tem ouvidos mas não é capaz de escutar.

A partir daquele dia, algo que já tem alguns anos, o Deus que houve as orações, em especial, aquelas que até mesmo para o que ora, é difícil acreditar que Deus responderá, tendo em vista fugir do roteiro das conferencias teológicas com Deus, que tem se tornado nossas orações.

Onde tentamos persuadir Deus através de uma lógica teológica, que em lembrando teologicamente quem Ele é, não lhe reste alternativa, a não ser uma resposta que seja favorável ao suplicante, pelo mérito expresso em sua verborragia teológica, e até mesmo pela sua pretensa erudição bajulacionista.

Mas uma oração simples do tipo: Perdoa me Deus, mas está difícil. Sei que não deveria ter este tipo de dúvida, mas o fato é que eu não sei direito quem é você, e às vezes me sinto desconfortável em falar com o Senhor, acho que até por este motivo tenho lhe procurado tão pouco. Mas estou cansado disto, será que o Senhor poderia me ajudar?”

Sim, a partir daquele dia, Deus começou a se revelar de modo totalmente novo e inesperado para mim. E têm sido dias de alegria, ainda que em meio as dores, comuns a existência humana. Sei que isto é uma tarefa para a eternidade, pois as escrituras nos ensinam que se fosse possível descrever a eternidade, ela consistiria no seguinte: Conhecer a Deus e a Jesus Cristo seu filho a quem ele enviou.

Quando digo “a partir daquele dia” não quero dizer que a resposta chegou imediatamente, apenas que tudo começou ali. Mas alguns dias depois, não sei precisar exatamente quantos, fui apresentado a uma literatura. Um livro que me emprestaram em que o autor trazia uma abordagem diferente de Deus, e que foi muito significativa dentro do processo em que eu estava vivendo.

Tudo isto estava acontecendo, enquanto eu cursava o terceiro ano de teologia na Faculdade Teológica Sul-Americana. E em uma das disciplinas foi exibido um filme que muito me impactou. À princípio, houve uma rejeição total pela maneira como aquela obra apresentava Jesus.

O impacto foi tão grande, que nem consegui ir até o final do filme. Posteriormente, assisti em minha casa com minha esposa, desta vez, sim, consegui, depois de uma certa relutância e um final surpreendente, assisti-lo.

O filme e o livro serviram como iconoclastas, mexeram com as bases da estátua sólida que anos de religiosidade haviam criado de Deus em minha mente, de modo que ela ficou meio bamba, mas ainda não era tudo. Deus tinha apenas começado.

Não quero aqui, citar o nome destas referidas obras, simplesmente por temer que alguns possam transformar isto em receita pronta. Entendo que Deus tem suas maneiras específicas de tratar com cada um, comigo foi assim, com outros, pode ser de maneira totalmente diferente.

Depois que esta estatua estava abalada, Deus enviou uma série de palestras que ajudaram a confirmar algo que o Pai já estava fazendo em minha vida. Até que veio o golpe de misericórdia, o Pai enviou sua palavra, e a estátua não resistiu. Parecia a cena famosa da estatua do ditador caindo. O deus ditador havia caído, finalmente havia espaço para a verdade, a alegria e a festa. O Deus de amor começava a se mostrar, e o medo foi se dissolvendo diante do Deus que é amor, em cumprimento de sua palavra que diz: “antes o perfeito amor lança fora todo o medo. Continua.

Alexandre.

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