Será que o Mundo quer mesmo a Paz?

Como ter uma paz mundial quando os indivíduos são a guerra?

por Alexandre O. Chaves

Discurso proferido em 28 de janeiro de 2015 por ocasião do ‘Londrina Cidade da Paz’, encontro inter-religioso em prol da paz devido aos atentados ao jornal parisiense Charlie Hebdo e ao massacre em Borno, na Nigéria.

Vietnam Napalm 1972

Começo sublinhando a estranheza que brota em meu coração todas às vezes que o mundo diz querer paz. Soa-me estranho tendo em vista a sua violência real, além de me soar paradoxal. Paradoxal, pois, à medida que o mundo aumenta os decibéis de seu discurso sobre paz, com mais intensidade estimula a guerra em todos os níveis da sociedade. Fala de paz ao passo em que incentiva disputa e a competitividade endossadas por seu catecismo evolutivo que propõe um darwinismo social, criando uma sociedade onde os fracos não têm vez.

Com injustiça fazemos vistas grossas à violência dos traços e das palavras daqueles que se escondem atrás do rótulo de artista [1]; que ferem com seu pseudo-humor ácido a alma de bilhões de pessoas naquilo que lhes é mais caro, blasfemando da fé alheia de forma gratuita; fazendo com isto acender o estopim da violência naqueles que, mesmo desprovidos de tal dom da habilidade de desenhar, porém com a alma sangrando, desenham uma cena de horror com tinta da violência. E o mundo e suas autoridades, por sua vez, escolhendo um lado da violência, buscam fazer justiça produzindo mais violência.

Isto sem falar nas ideologias nocivas que estimulam os conflitos entre classes. Pobre e rico, negro e branco, homem e mulher, patrão e empregado. Agem aparentemente sem o interesse equivalente na solução do problema, visto que a impressão que temos é de que suas forças se proliferam melhor no caos e não na ordem. Estes sempre se propõem como defensores oportunistas dos direitos, ora do negro, ora do branco, ora do homem, ora da mulher, se valendo da guerra e mantendo, assim, a ilusão de sua importância social indispensável para um paraíso que sempre está no futuro.

É o velho modelo que ama a humanidade abstrata, ao passo que odeia seu vizinho. Cobrando um mundo com mais justiça social ao passo que é incapaz de economizar o dinheiro de seu charuto cubano para ajudar seu semelhante que jaz à sua porta. É o mundo das ideologias das religiões, o mundo da imagem desprovida de conteúdo correspondente, aquilo que Jesus chamou de sepulcro caiado.

Falando como discípulos de Jesus, não alimentamos a esperança de paz verdadeira produzida nestes termos, por esta razão conclamamos a todos os homens e mulheres uma volta à sobriedade e a sensatez, repensando, assim, os valores de nossa sociedade pós-moderna. E aos líderes da fé cristã, como atalaias, conclamamos a uma lembrança de onde caímos e uma volta ao primeiro amor, além de uma fidelidade à mensagem do evangelho da graça de Deus em Cristo Jesus, do qual não devemos sentir vergonha pois é o poder de Deus.

Lembrando sempre que o cordeiro de Deus não veio, segundo ele mesmo nos disse, para nos trazer uma religião nova a fim de criar conflito com outras religiões distintas, mas sim para nos dar vida e paz; sabedores que somos de que a verdade não se impõe à força a ninguém, apenas damos testemunho dela. Testemunhando com coragem a verdade, a paz verdadeira frutificará pela manifestação da vida de Cristo em todos aqueles que a acatarem com amor, produzindo assim uma nova sociedade, onde os fracos são bem vindos, os doentes são aceitos e pecadores são amados.

Proclamando a todos em todos os lugares que se arrependam de servir ao espírito deste século – deste aeon. Espírito este que, nestes termos, além de colocar nossa sociedade numa trajetória contrária ao destino que esperamos, ou seja, a não-paz,  nos faz questionar seu real interesse na paz verdadeira. Por esta razão conclamamos a todos os homens e mulheres com interesse real na paz a se renderem ao senhorio de Cristo, que é capaz de dar, como expressão de um milagre, um novo coração a todos que em verdade o invocam como Senhor, um coração que ama a paz de forma real.

Jesus nos disse que nos daria a sua paz não como o mundo a dá. Pois a paz no mundo é fruto de conchavos, do sacrifício da verdade que apenas tem o poder de protelar as tensões – não raramente aliados históricos se transformam em inimigos mortais quando interesses conflitam. A paz, nestes termos, passa por assumir a mentira como verdade, por fazer vistas grossas à injustiça enquanto lhe é oportuno. E isto nada mais é do que dizer: “Paz, paz!” quando não há paz.

A verdadeira paz é fruto primeiramente da reconciliação do homem com Deus providenciada pelo próprio Deus na cruz de Jesus, onde Deus crucifica juntamente com Cristo o violento e a violência e faz do homem reconciliado um ponto final para a violência que chega até ele como um tapa em seu rosto, dando ele a outra face. Ao passo que faz deste novo homem um trampolim para o anúncio do evangelho da paz. Do evangelho que aponta para o Deus que, mesmo sendo Deus, prefere morrer numa cruz ao invés de retribuir a violência de uma humanidade que o crucificava: criando assim, na ressurreição, um novo paradigma de humanidade e de paz. Que Deus nos abençoe.

[1] Para entender melhor o atentado ao jornal parisiense Charlie Hebdo acesse: http://goo.gl/xwMwxv

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