O Aprendiz: qual a vantagem? (parte 2)

-MAS QUE VANTAGEM EM TENHO EM SEGUIR A CRISTO?

Continuando o texto da semana passada…

Responder ao chamado do Cristo para o aprendizado, tendo em vista uma avaliação que busca identificar lucros e vantagens, não é uma maneira legítima que as Escrituras nos trazem como meio de responder a esta vocação. Isto equivale a desconsiderar o valor daquele que chama, e a manter o aprendiz preso sob as garras da morte e dentro do labirinto do seu egoísmo, algo que o impossibilita a cumprir sua vocação.

Tendo em vista que o seu mestre veio para servir, e não para ser servido: aprendiz de servo, servo é. Portanto, Cristo deve ser a única razão de uma resposta positiva ao aprendizado. Pois, qual de vós, pretendendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para construir? (Lc 14:28). Ainda que nos seja permitido dentro da perspectiva bíblica do novo testamento fazer uma avaliação do chamamento como dito em Lucas, tal avaliação serve apenas para revelar se Cristo é suficiente como a resposta do aprendiz ou não.

Isto, portanto, nos dará meios para discernir se nossa resposta é fruto de uma revelação adequada de quem nos chama, sabendo que o seguir a Cristo define o aprendizado, ou se o mundo e os nossos interesses ainda são uma prioridade para nós. É neste sentido que o chamado a esta avaliação cumpre seu papel. Nem mesmos as privações concernentes ao aprendizado podem ser transformadas em glória humana, se transformando, assim, em meio explicativo para a resposta positiva ao aprendizado, como ressalta Bonhoeffer:

“Por isso: ‘bem-aventurado!’ Jesus dirige-se aos aprendizes (cf.Lc 6.20ss). Fala aos que já estão sob o poder de seu chamado. Este chamado os tornou pobres, atribulados e famintos. Jesus os declara bem-aventurados, porém, não por causa de sua carência ou por causa de sua renúncia. Nem a carência e nem a renúncia são, por si só, causa da bem-aventurança. Porém, motivo suficiente é o chamado e a promissão em consequência dos quais os aprendizes vivem em carência e em renúncia. A observação de que, em algumas bem-aventuranças, se faz menção da carência, em outras, da renúncia consciente, ou ainda de certas virtudes dos aprendizes, não tem importância. A carência objetiva e a renúncia pessoal têm sua origem comum no chamado e promissão de Cristo. Nenhuma delas têm valor e direito a reivindicações por si só.”

Dietrich Bonhoeffer em seu livro Discipulado.

Podemos perceber também pelo texto que há implicações na ação obediente dos vocacionados que podem, de alguma maneira, serem mal interpretadas. Diante da lógica humana eles podem parecer pessoas irresponsáveis e sem afeto natural, considerando que deixaram seus afazeres e aparentemente deram pouca importância aos laços familiares. O aprendizado não implica em rompimento de ligações fraternas, de menosprezo a parentes e nem de indiferença com relação aos afazeres profissionais. Mas implicará, com certeza, diante de uma ação obediente com relação à vocação, em uma incompreensão das pessoas, até mesmo as mais próximas e, muitas vezes, nossa própria incompreensão. Pois à medida que nos posicionamos em direção à obediência simples de Cristo, descobriremos que, majoritariamente, isto significará desobedecer a nós mesmos, este fato além de incompreensível, é também aborrecedor.

following jesus

Se alguém vem a mim e não aborrecer seu pai, e sua mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda sua própria vida, não pode ser meu aprendiz. (Lc 14:26). O que precisamos entender é que diante da manifestação do reino de Deus as prioridades são subvertidas e o amor verdadeiro deve nos livrar dos sentimentos de posse. Nada mais nos resta como expressão do bem e do amor trazidos pela Boa Nova do Reino de Deus entre nós a não ser seguir obedientemente aquilo que Jesus Cristo estabelece como prioridade para o momento, que no caso se apresentou como o vinde após mim.

A vocação trazida por Jesus, de forma simples e descomplicada, nos coloca em xeque. Diante das complicações teológicas que criamos, na qual muitas vezes nos perdemos e nos distanciamos do sentido mais puro do ser aprendiz, ou seja, a obediência, ficam flagrantes nossas tentativas de transtornar o aprendizado.  Além do mais, estas complicações são também aquilo que nos permite desobedecer a Cristo e permanecer com nossas consciências intocadas e, ainda assim, requeremos para nós o sermos reconhecidos como aprendizes de Jesus. Alguém pode sugerir que o que está sendo dito neste texto exige um estado de perfeição que o ser humano não dispõe, e que tal fato pode inviabilizar o aprendizado.

O que estamos falando aqui, não se trata de perfeição nem temos a ingenuidade necessária para isto. Mas se trata apenas de um coração disposto a obedecer, que conhece suas imperfeições, mas que, em detrimento delas, está disposto a prosseguir em direção da sua vocação tendo em vista quem o chamou (Fp 3:12-13). Sabemos que em nossa caminhada como aprendizes fracassaremos muitas vezes em obedecer ao nosso Senhor, como vemos em varias porções do Novo Testamento. Mesmo porque a nossa condição é de alguém que não sabe e precisa aprender e, se o próprio Cristo aprendeu a obediência por aquilo que sofreu (Hb 5:8), com o aprendiz não será diferente.

É exatamente aí que está a questão chave levantada pelo Senhor referente ao aprendizado: ninguém pode querer ser aprendiz de Cristo mantendo-se no controle de sua própria vida sendo ele próprio quem determina suas decisões. E não se pode ser aprendiz de Cristo de maneira parcial; ou se é integralmente ou será necessário ser mais bem trabalhado pela graça até que haja uma rendição plena. Caso contrário, não se pode ser aprendiz de Cristo. Neste ponto o sacrifício de Cristo e o espirito da cruz, que atua em nossa vida diária, entram de forma indispensável dando a condição a pecadores para serem feitos filhos de Deus e aprendizes de Jesus. Mas sobre este aspecto trataremos em outro momento. Por hora, fiquemos na graça bruta do Mestre.

Alexandre.

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