O muro, o morno e a apatia

Admira- me que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho. Gálatas 1:6.

Existem algumas questões peculiares ao nosso tempo, que talvez não existissem na época em que Paulo escreve esta carta aos Gálatas. Ainda que elas estivessem presentes naquela época, por certo não se mostravam com a mesma intensidade dos tempos atuais. Esta é uma afirmação a princípio vaga, mas penso que no decorrer do tempo e no deslizar da pena estas questões se tornarão mais objetivas. A começar pelo fato de que, logo no início de sua carta, Paulo manifesta sua admiração e espanto, algo que é raro em nossos dias – a capacidade de nos espantar.

Vivemos tempos de apatia, por isso gostaria de começar nossa reflexão por esta questão. Estão nos tirando a capacidade do espanto, da admiração e da indignação. O sistema deste mundo tem conseguido – mesmo em face da consciência, ainda que superficial da maioria – fazer com que o espirito humano se dobre às suas determinações. E o que é pior: estão se dobrando, até mesmo aqueles que deveriam testificar ao mundo que suas obras são más.

Jesus disse certa vez a seus irmãos incrédulos – e a incredulidade no Cristo de Deus é característica “sine qua non” para a cidadania neste mundo em trevas – que: “O mundo não vos pode odiar, mas ele me odeia a mim, porquanto dele testifico que as suas obras são más.” João 7:7. A seriedade contida nestas palavras é eterna e imensurável, por isso, podemos tirar uma conclusão clara. Tudo aquilo que Jesus Cristo é o mundo, como sistema, odeia, por uma razão simples: o testemunho de vida de Cristo expõe a maldade do sistema do mundo e, por conseguinte, o ódio daqueles que se valem do mundo como habitat natural, será lançado sobre todo aquele que estiver, pela fé, unido a Cristo, sendo desta forma, Cristo para o mundo.

Existe aqui uma relação que é importante destacar e que nos será útil adiante. Trata-se da relação de amor e ódio entre o sistema do mundo e os verdadeiramente cristãos. Jesus por meio de Sua palavra nos disse: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim.
Se vós fósseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia. Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa” João 15:18-20.

O que queremos deixar claro, antes de voltarmos ao tema da apatia em que estamos mergulhados, é o fato da incompatibilidade entre o mundo como sistema e Jesus Cristo, entre aqueles que são discípulos do mundo e os que são discípulos de Cristo. Luz e trevas não combinam. “Não vos prendais a um jugo desigual com os infiéis; porque, que sociedade tem a justiça com a injustiça? E que comunhão tem a luz com as trevas?” 2 Coríntios 6:14.

Aqui cabe uma orientação. Quando a palavra de Deus nos ensina sobre o cuidado que devemos ter em relação às nossas associações ou relações de comunhão, em momento algum a bíblia está se referindo a pessoas pecadoras, pelo contrário, é justamente com estas que devemos nos envolver, a menos que Jesus tenha nos ensinado errado em seu discurso e prática.

Pois, Ele é aquele que foi mal visto e acusado, justamente por Sua mania de se envolver e se confraternizar com pessoas que, para o sistema do mundo baseado no mérito, são desqualificadas e impróprias. A seus acusadores respondeu dizendo: “Não necessitam de médico os que estão sãos, mas, sim, os que estão enfermos; Eu não vim chamar os justos, mas, sim, os pecadores, ao arrependimento” Lucas 5:31-32.

Quando a Palavra nos ensina sobre isto, ela está se referindo àqueles que aceitam o jeito de ser do mundo. São os tais que não se importam de usar disfarces, inclusive de crente; são lobos em pele de cordeiro. Jamais assumirão sua depravação total, pois isto envolve uma auto e consciente declaração de doentes; de gritar aos quatro ventos: Leproso, leproso! apelando assim, para a misericórdia do filho de Davi, coisa que só os falidos que não têm nada a oferecer podem fazê-lo.

Por esta razão, a palavra de Deus nos deixa claro quando diz: “Já por carta vos tenho escrito, que não vos associeis com os que se prostituem; Isto não quer dizer absolutamente com os devassos deste mundo, ou com os avarentos, ou com os roubadores, ou com os idólatras; porque então vos seria necessário sair do mundo. Mas agora vos escrevi que não vos associeis com aquele que, dizendo-se irmão, for devasso, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com o tal nem ainda comais” 1 Coríntios 5:9-11.

Voltando à questão da apatia, quando questionamos de forma particular as atitudes, pensamentos e direções que o mundo nos impõe e, quando digo mundo, estou me referindo a este sistema escravizador que força a massa a andar em uma determinada direção, a pensar de determinado jeito, a consumir determinadas coisas, percebemos que, individualmente, o índice de pessoas que chegam à conclusão de que o caminho que estamos tomando não é bom, é enorme. Porém, este índice se equivale ao número de pessoas que vão dizer, “É assim mesmo, fazer o que? ”

Quantas atitudes, pensamentos e práticas, cultivamos em nossas vidas de forma automática, simplesmente porque não há nada nelas que chame a atenção ou cause espanto? Em primeiro lugar a atenção e o espanto do próprio mundo. Muitos de nossos valores estão amalgamados com os alicerces do mundo, tão adaptados ao sistema do mundo, que jamais trarão espanto, ou despertarão a nossa atenção, e nem serão capazes de causar incômodo aos olhos dos que estão em trevas no mundo. Aja vista, que a luz que Jesus disse que seriamos, tem se convertido no mesmo tipo de luz com a qual o mundo que vive em trevas se ilude, produz e é capaz de suportar.

Em segundo lugar, podemos constatar em nós mesmos esta falta de espanto com o mundo, nós os que nos dizemos cristãos. Ou seja, quando nossas atitudes, pensamentos, valores e modo de vida não espantam o mundo, nós é que deveríamos nos espantar. Isto é sintomático, e revela pra nós que precisamos urgentemente, ou tirar de nós o nome de cristãos ou nos arrependermos. Pois, quando isto acontece entramos no estado de conforto, e isto é mornidão. “Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, estou a ponto de vomitar-te da minha boca” Apocalipse 3:15-16.

Frio e calor são duas coisas que provocam reações imediatas. Quando nos deparamos com uma superfície quente reagimos contra ela de forma rápida. O mesmo acontece quando entramos em contato com algo extremamente frio. O simples fato de estarmos confortáveis, indiferentes ou apáticos com a situação, demonstra que carecemos desesperadamente de fé provada pelo fogo, vestes brancas e colírio do céu. “Aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças; e roupas brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que unjas os teus olhos com colírio, para que vejas” Apocalipse 3:18.

Mas, como isto pode acontecer com a igreja? Se não fosse possível, Jesus não teria exortado a igreja de Laodicéia, e se aconteceu com ela, pode acontecer com qualquer comunidade. Basta nos acomodar, nos importar mais com o nosso conforto relacional com o mundo e sua opinião a nosso respeito do que com o Evangelho e suas implicações. Basta a omissão, o meio termo, a timidez e a falta de posicionamento. Tudo isto disfarçado com o discurso cristão da tolerância.

Agindo assim, ou melhor, não agindo, logo a sequência do texto de Gálatas se apresenta. Aqueles que gostam de nos inquietar, tirar-nos da quietude, fruto do Evangelho da Graça de Cristo se apresentam. E isto com um intuito claro: perverter o Evangelho de Cristo. A luta – no caso específico que motivou Paulo a exortar os Gálatas – é contra os judaizantes. Porém, o mundo não se importa que seus agentes sejam os quentes judaizantes fariseus, os frios modernos, conhecidos como ateus ou, o partido dos mornos equilibrados dos saduceus, desde que haja espaço para a glória humana. Para isto, agem promovendo confusão (Babel), em períodos longos (Erek), de forma sutil (Acade), com o objetivo de chegar até à fortaleza de Anu, lugar onde Satanás reina através do homem (Calné).

Como exemplo gostaria de destacar uma notícia. No dia 24 de julho de 2009, o jornal Folha de São Paulo, noticiou o fato de que o apresentador Marcelo Tas do programa de televisão CQC, estava passando por algumas dificuldades e constrangimentos. Isto porque, alguém resolveu passar-se por ele nas redes sociais, diz o texto: “O pretenso Tas usou uma manha gráfica para induzir os internautas a erro: trocou o “l” de Marcelo por um “i” maiúsculo. “Ele começou a oferecer ingressos para o “CQC”, emitia opiniões e fazia bagunça com o meu nome. Falei que era crime e dei um prazo de 24 horas para ele terminar com a história. E imediatamente procurei o Twitter”, diz Tas. Folha de São Paulo, 24/07/2009.

Nos textos direcionados à Igreja, é comum tentarmos fazer a diferenciação entre o Evangelho e aquilo que Paulo vai chamar de outro evangelho. Nas Escrituras encontramos duas palavras do grego para referirmos a este (outro), e estas duas palavras estão contidas nesta porção da carta aos Gálatas. Uma é a palavra allós e a outra é a palavra heterós. Estas duas palavras, ainda que traduzidas de forma igual no português, trazem na verdade significados distintos no grego koinê.

Enquanto a palavra heterós refere-se àquilo que é flagrantemente outro, por sua diferença notável, que não deixa dúvida quanto a sua distinção, a outra, por sua vez, dá o sentido daquilo que é outro ou diferente, porém com semelhanças que podem promover confusões. Sendo assim, exige sempre uma atenção redobrada quando entramos em contato. Esta atenção se faz necessária afim de não sermos enganados, confundindo manha com manhã. Nestes casos a palavra utilizada é alós, empregada para referir-se a algo que é outro, porém, que se assemelha.

Fico abismado com a seriedade deste fato e com o desprezo, a apatia e o desinteresse das pessoas que se dizem cristãs em relação à busca daquilo que diferencia o Evangelho da Graça de Deus em Cristo, e este tal “outro evangelho” – o evangelho dos homens sem graça e ensimesmados. O sistema do mundo, no qual a religião do mundo está incluída, tem conseguido alienar as pessoas, tirando delas a capacidade crítica, num mundo de fronteiras elásticas e relativismo absurdo. Que Deus nos de a Graça, a coragem e a fé para nos posicionarmos. “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo”. Gálatas 6:14.

Alexandre.

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